Artigo | Peter Parker vs. o Mundo – Parte I

 

 

Para aqueles que tiveram já oportunidade de ler alguns dos meus textos incluídos no Ócio não será novidade que a minha opinião sobre a corrente onda de filmes de super-heróis não é a mais positiva. Com isso não pretendo incluir-me numa espécie de contracultura para parecer superior em relação às pessoas que adoram estes filmes (embora assim possa parecer, concedo), apenas acho que eles são alguns dos melhores piores exemplos sobre o que está errado com o Cinema em larga escala em 2017. Desde a génese da 7ª Arte que diferentes eras foram marcadas por diferentes modas que acabaram por dominar a cultura popular da época  deixando sempre para o Futuro um leque artístico extensivo que as definiu até eventualmente serem substituídas pela próxima nova tara. O que as parece distinguir da actual é o facto de que quase 10 anos após o seu começo não-oficial com os lançamentos explosivos de “Iron Man” e “The Dark Knight” continua a faltar uma espinha dorsal robusta a esta época de Ouro das adaptações BD que equivalha ao nível de culto que esta provocou.

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Crítica | Ghost in the Shell (2017)

 

 

Uma adaptação cinematográfica live-action de Anime/Manga é uma das poucas coisas que conseguiria obter à priori uma taxa de aprovação mais baixa do que a presença de Donald Trump num restaurante vegetariano em Damasco. Muito como as malogradas tentativas de adaptar videojogos ao grande ecrã, raras foram as ocasiões em que uma propriedade deste universo de animação/banda desenhada japonesa teve honras de representação digna na sua passagem para o mundo real. Tal como o que acabaria por assombrar as adaptações BD pós-“Batman Forever” por uns bons anos, vivemos num clima onde o material é julgado no seu todo pela sua veia mais cómica e infantil, o que desde logo o torna mais indesejável aos olhos do grande público e, por conseguinte, aos das grandes produtoras com acesso ao orçamento para lhes fazer justiça. Se adicionarmos a isso uma barreira linguística e o preconceito bem presente contra a aliança entre “conteúdo adulto” e “animação”, a probabilidade de uma equipa de profissionais de topo se reunir para tornar esta ficção mais real torna-se então mínima. Todavia é também verdade que os gostos mainstream mudaram imenso na última década e no mesmo ambiente onde super-heróis e cultura popular se tornaram quase sinónimos há agora espaço para outros nichos de entretenimento brilharem.

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Crítica | Logan (2017)

 

 

O que perfaz um herói? Em plena idade de ouro de adaptações BD, onde nenhum herói parece estar acima do “super”, cada vez menos produtores se recusam a mandar a sua acha para a fogueira e as opiniões são variadas. A Disney insistiria na leveza, carisma e potencial de diversão, a Warner Brothers faria o argumento contrário a favor da soturnidade e individualismo, a Fox atiraria várias ideias à parede a procura da resposta mais rentável e as restantes entidades chorariam enquanto se ocupam a salvar o Cinema de si próprio. Estes paradigmas assentam-se na própria diversidade de tom dos livros que ao longo dos anos executaram um slalom entre estilos distintos (Ex: #1, #2, #3, etc.) que iam de encontro às sensibilidades particulares da época em que estavam inseridos, resultando nas décadas de conteúdo diverso que temos ao nosso dispor. Contudo a hegemonia Marvel/Disney neste sector cedo tornou o mercado das adaptações numa fábrica onde tudo o que entra está destinado a sair prezando o humor e a acção enquanto se debate com qualquer conceito mais maduro, o que atribuiu ao género o seu sucesso comercial quase tão rápido como uma noção previsível de monotonia que praticamente condenou toda e qualquer tentativa de colorir fora destas linhas.

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2016 e o Cinema

 

Este ano, de forma a assinalar o fim de 2016, o Ócio decidiu fazer algo diferente e editar um pequeno vídeo onde é feito um apanhado daquilo que o Cinema nos deu no ano transacto assim como a apresentação do top 10 oficial da equipa do blog.

Esperemos que gostem.

Crítica | Silence (2016)

 

 

No nosso país a noção de História é servida desde cedo como sinónimo de grandes conquistas e descobertas, de pioneiros e de um país numa situação outrora bem melhor que se foi perdendo ao longo das eras. Durante essa passagem de testemunho entre gerações o carácter saudosista e patriótico da mesma sobressai quando pouco ou nenhum ênfase é dado ao impacto negativo que a presença portuguesa lá fora possa ter tido em povos e locais na corrida pela hegemonia do Globo. Seria difícil manter essa ideia de um passado glorioso geração após geração com um olhar igualmente detalhado sobre as atrocidades que o acompanham pelo que a sua relegação para segundo plano é necessária para manter a ilusão de uma hegemonia limpa. Levantar esse véu demasiadas vezes traria por conseguinte um raciocínio mais aprofundado sobre certas questões que poderiam pôr em causa o orgulho que essa época dourada nos faz sentir séculos depois. Nas palavras do Dr. James Wilson: “Um problema adiado é um problema negado.”

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Crítica | Hacksaw Ridge (2016)

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Mel Gibson é um sapo duro de engolir. Se é verdade que o seu carácter tem um lado indesejável já mais que exposto e documentado, de igual forma é verdade que as suas capacidades como artista estão acima da média dos seus pares quer em frente ou por detrás da câmara. Uma abordagem à sua perda de estatuto pode por esta altura ser algo repetitivo e banal mas desde essa ocasião o seu percurso profissional – este filme incluído – apresenta uma influência sua tão forte que ignorá-la seria desprezar um ponto relevante à análise do artista e da sua obra. Nos anos após a divulgação dos seus comentários de cariz racista, sexista e tudo pelo meio Gibson foi interrompendo o seu exílio da ribalta com aparições em filmes como “Expendables 3” e o mais recente “Blood Father” onde interpretou o mesmo tipo de lobo solitário a viver à margem da lei e/ou da vida cor-de-rosa que outrora tinha sido sua, um paralelismo com a vida real que não podia ser mais óbvio. Agora na qualidade de realizador – 10 anos após o seu último esforço, “Apocalypto” – a história escolhida por Gibson para adaptar também não terá vindo ao acaso já que alguns dos temas nela incluídos vão de encontro ao seu desejo de demonstrar o seu lado mais apaziguador mantendo, ao mesmo tempo, o tipo de estrutura com que tem vindo a trabalhar com grande sucesso.

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Crítica | Ghostbusters (2016)

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É sempre difícil vender um remake. A mera perspectiva de que no futuro próximo existirá uma nova versão de uma história que já havia deixado a sua marca anos ou mesmo décadas antes é barra em despertar vários tipos diferentes de negativismo. Mesmo estando as companhias a apostar na nostalgia para poderem retirar algum lucro de uma roda que não têm de inventar é também ela que faz com que o trajecto até à data em que o público pode apreciar o novo ponto de vista seja especialmente íngreme. Pessoas não são fãs da ideia de terem de pagar pelo privilégio de verem a “mesma” coisa pela segunda vez mas odeiam ainda mais a noção de algo novo a interferir com a memória feliz à qual aquela propriedade está associada. Tendo em conta a procissão de tentativas falhadas de que há memória não é surpreendente que essa seja a primeira reacção ao anúncio de mais uma, pelo que talvez fosse inteligente da parte do estúdio responsável atiçar as chamas da discórdia o menos possível até ao momento em que o filme pudesse falar por si próprio (e as notas começassem a cair). A equipa criativa responsável pelo novo “Ghostbusters” pensou de maneira diferente, tomando a posição extremista de uma minoria como pretexto que por si não chegava para justificar o tamanho das ondas levantadas mas que torna a falta de conteúdo de relevo no resultado final extra-ultrajante.

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Os Miseráveis

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A 28 de Fevereiro do presente ano o comediante Chris Rock tomou o palco do Dolby Theatre na qualidade de anfitrião dos Oscars para entregar um discurso esperado por muitos. Ainda na crista da indignação ligada ao painel 100% caucasiano de actores nomeados para os prémios, a noite adivinhava-se quente e a escolha de Rock – feita antes do anúncio dos nomeados e consequente controvérsia – surgiu como acaso feliz para aqueles que procuravam ver o “orgulho branco” da elite do Cinema exposto no seu evento mais mediático. De início a fim as intervenções do comediante corresponderam ao esperado, focando-se no tema da desigualdade da indústria e a necessidade de mudança rápida e drástica, e fizeram-se acompanhar por um misto de rábulas e momentos sérios protagonizados por outros convidados. Nas cadeiras a audiência maioritariamente caucasiana ia acenando de sorriso amarelo em riste para os seus compinchas “de cor” – um termo da época da segregação agora usado em prol do politicamente correcto – como quem pede perdão por uma série de chicotadas emocionais que não se recordava de dar. Findas as hostilidades, o saldo da noite compôs-se de duas grandes conclusões: 1) não ficaria mal a Hollywood colocar algum cloro na sua piscina de talento e 2) a indústria ainda está longe de perceber o que isso é.

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Crítica: The Nice Guys (2016)

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Se algum dia se realizou uma cerimónia para oficializar a expressão “Em equipa que ganha não se mexe” Shane Black provavelmente marcou presença para deixar a sua assinatura e saiu com um novo mote de vida. Exceptuando talvez a sua recente colaboração com a linha de montagem Marvel em “Iron Man 3”, Black tem-se mantido mais ou menos fiel à fórmula que fez dele um autores alternativos de alto nível – passando o paradoxo – mais apelantes a trabalhar hoje em dia.  Hit ante hit de culto o seu trabalho revelou as suas influências enraizadas no noir que se traduziram ao longo dos anos em diferentes versões da mesma história de detectives e/ou vingança, partilhada por vários conjuntos de simples misfits a lutar contra uma conspiração maior. A chave da imortalidade por detrás dessas obras reside na prática de focar a maior parte da sua atenção nesses maltrapilhos e deixar a comédia, drama e acção fluir através deles. Sem surpresas, ” The Nice Guys” é mais um título que segue estes passos à risca e, sem surpresas, é também uma entrada digna de todo o legado que a precede.

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Crítica: An Education (2009)

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Embora pareça cada vez mais difícil associar uma conotação positiva à palavra “feminismo” nos dias que correm, existem ainda aqueles que encontrar o verdadeiro sentido da palavra e convertê-lo em algo que representa esse ideal de forma respeitosa e humanista. “An Education” é feminismo feito de maneira certa,  que é como quem diz que aborda a condição da mulher como membro da sociedade num período onde as condições das mesmas poderiam facilmente instigar um bombardear de propaganda anti-masculina e escolhe fazer o contrário. Esta história de uma adolescente londrina de 16 anos é o exemplo perfeito daquilo que um conto de resolução e amadurecimento (não só mas principalmente) femininos devem ser. Jenny (Carey Mulligan) vive enclausurada sob o olhar fixo de um pai bastante controlador que tomou como sua a tarefa de planear o futuro inteiro da filha, passando por um percurso académico de excelência e (como não podia deixar de ser) um casamento com o par ideal. No seu cárcere ela sonha com um mundo fora daquelas quatro paredes onde possa ter um encontro com alguma aventura e romance antes que o controlo da sua vida seja transferido entre capatazes. É aqui que entra David (Peter Saarsgard), um homem mais velho que graças à sua propensão para sherpa social cai na vida de Jenny como a resposta a uma prece e o par aproxima-se.

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